Uma homenagem às mães
Sentado numa mureta naquela manhã outonal, quando o céu azul apresentava belos flocos de algodão branco, abri um papel amarelado pelo tempo. Foi-me passado pela Sra. Gisela, aluna do c urso de Informática. Logo nas primeiras linhas senti-me atraído pela escrita. Devorei o texto emocionado. Carregado de sensibilidade, saudosismo e uma ternura de mãe que passou pela vida dedicada a família e no fim, como uma brava guerreira, no ocaso da vida, expõe seu passado de gloria com uma certa amargura. Transcrevo o artigo "in totum" para homenagear as mulheres do nosso tempo.
"Das Páginas Do Meu Diário'
Cheguei à idade que deveria ser o limite da vida. Daqui por diante os anos pesarão como fardos, e cada um que passar trará o fantasma alarmante do aniquilamento. Os extremos da vida se tocarão. Diminuirei de volume e serei fraca e indefesa como as crianças. A mente desgovernada deixará a nu os defeitos que a educação refreia e o bom senso dissimula. Serei teimosa e pueril como na infância. A vista, tendo metade da visão, causara riso aos outros, e o ouvido, afetado pela idade causara impaciência. A mente, lenta no raciocínio, será menosprezada nas opiniões emitidas. Começarei a ser governada como nos primeiros anos. Se caminhar atrapalharei, se parar estarei me prevalecendo da situação para dar trabalho. Ninguém será gentil porque julgarão que não sei mais valorizar a amabilidade. Tropeçarei a miúde e por isso escolherão um canto da sala ou na varanda onde me colocarão como um objeto. Ai ficarei olhando minhas pernas inúteis, meus pés inchados ou deformados e lembrar-me-ei onde me levaram quando validos atrás de uma parcela de conforto aos necessitados sem medir distancias nem canseiras. Minhas mãos penderão no regaço vazio como dois soldados feridos na batalha: olharei os dedos tortos, nodosos e doridos e parecera um sonho, já haverem sido fortes e vitoriosos nas batalhas do tanque e do ferro, não de haverem gastos no preparo dos alimentos, manejando pesadas achas, cuidando das crianças, cosendo, dando remédios, embalando-as e cobrindo-as. Minha mente, recordando episódios dispare será como uma colcha de retalhos berrantes e desencontrados. O cérebro, enfraquecido pela idade, terá lacunas que dará impressão de má fé. Farão na cozinha, pratos de difícil preparo, mas o meu mingau é que será falado como coisa de grande trabalho. Meus olhos lacrimejarão porque terei saudades do passado, mas pingarão colírios para secá-los. Já não poderei tocar nos objetos alheios porque terei borbulhas na pele. Todos lerão na minha fronte ampla a palavra CADUCA e eu por mais que me olhe no espelho nada verei. Procurarei no convívio com animais o que os homens me negarem: pensarei quando os cães me lamberem as mãos que eles são portadores da gratidão que os homens esqueceram de ter. Quando adoecer de tédio, dar-me-ão vitaminas em vez de compreensão. Invejarei os pássaros livres, enquanto que eu serei prisioneira da carne. Ficarei sentada a um canto, sonolenta, esperando o cair da noite eterna. Serei como a lâmpada que bruxuleia por falta de azeite. E depois que a comédia terminar, limparão os vestígios de minha passagem e haverá suspiros de alivio em todos os peitos e as consciências que não compreenderam o drama da decrepitude, dormirão tranquilos sobre os louros do dever cumprido.
O nome da autora é Alva, simplesmente Alba. Não era escritora ou jornalista era poetisa familiar. Texto cedido pela tataraneta.
Jorge Okamoto